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quinta-feira, 11 de junho de 2020

Jesus Cristo: História e Teologia

Jesus Cristo: História e Teologia

A questão de Jesus Histórico.

                Nos inícios do Cristianismo, não existiu propriamente a necessidade de evidenciar a real existência de Jesus, mas sim dar continuidade à Sua Obra. De facto, Foi em Milão que se deu por determinado e terminada a perseguição aos Cristãos sob a complacência de Constantino, ano 313 (Édito de Milão), até lá os primeiros cristãos viviam sobre o medo de se declararem e se mostrarem como os verdadeiros Cristãos – seguidores de Jesus, o Cristo.

                Esta área de estudo, defronta-se sobretudo aquilo que é a questão cristológica de Jesus, ou seja, de que modo passou a ser entendido e compreendido à luz da fé, o próprio Deus encarnado, todos os demais títulos: Filho do Homem, Rabi/Mestre, Salvador, Senhor e ainda reconhece-Lo por diversas fontes, como tal. A Cristologia prende-se, portanto, pelo estudo da verdadeira identidade de Jesus, como também compreender o seu papel como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

                A Cristologia nasce já no seio dos apóstolos pelo fascínio e espanto da presença de Jesus, mas é na ressurreição que tudo parece começar a ganhar alicerces e bases para dar continuidade do Seu Mandamento: «Ide por todo mundo, pregai o Evangelho a toda criatura» (Mc 16,15) pois, «Eu estarei convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28,20). É aqui que as primeiras comunidades percebem e começam a entender a pessoa de Jesus Cristo á luz do Antigo Testamento, Aquele que viria para salvar o seu povo.

                A cristologia vai andar em torno dos acontecimentos, quer da historicidade de Jesus como também o seu kerygma. A Palavra de Jesus é infindável e está para lá da compreensão humana, é uma palavra que convoca e nos convida ao seu seguimento e apostolado, à semelhança da Palavra que se espelha no Antigo Testamento ( que é a mesma por excelência), ou seja, Deus servindo-se da linguagem humana, cria nos profetas a inspiração da Sua Palavra e os Chama desde sempre ao Seu amor.

                O estudo baseado na Sua Cristologia, leva-nos ao conhecimento na iluminação que é a fé em Cristo Ressuscitado toda a base e sustento. Não é possível conceber uma cristologia senão tivermos como base tudo aquilo que é inerente à pessoa de Jesus. O ponto central que hoje continua a ser chamativo e a atrair todas as atenções no Cristianismo, é o evento Pascal, é a Páscoa que torna evidente e crente de quem na verdade se trata a pessoa de Jesus, Aquele que dá a vida pelos seus e arranca do coração do homem, tudo aquilo que é extraordinário ao ponto de se entregar livremente ao amor pelo próximo.

                Se a ressurreição é entendida como o ponto fulcral na história do Cristianismo, não admira que a verdadeira Páscoa só se entenda numa reflexão cristológica, onde a continua-descontinuidade ou a descontinua-continuidade de todo o evento de Jesus, é ainda hoje permanente na vida do crente. Jesus deve ser analisado na perspetiva pré e pós pascal, isto é, a ressurreição só se compreende tendo como base todo o evento histórico e teológico da pessoa de Jesus de Nazaré.

 

                As fontes da Cristologia são altamente verificáveis por exemplo nos Evangelhos Sinóticos, que são aqueles textos dos apóstolos que apesar de serem semelhantes naquilo que é os acontecimentos das ações mais marcantes e deslumbrantes de Jesus, e que não conseguem deixar dúvida da evidência da divindade (ensinamentos, milagres exorcismos, etc) também têm as suas divergências naquilo que é semântica, aspetos culturais e também no que toca a Fonte “Q”, a fonte à qual só os evangelistas tiveram acesso. No entanto, numa análise histórica até aos dias de hoje, verificamos alguns avanços sobre o estudo e clarividência da pessoa de Jesus.

Não há muito tempo, coloca-se a First/Old Quest 1778-1906.

 

                Surge como tentativa de entender Jesus numa relação histórico-Kerygmática de forma puramente racionalista e metódica. A figura mais simbólica neste tempo é Reimarus afirmando que a razão é suficiente para alcançar a fé e o conhecimento da pessoa de Jesus, isto é, o Jesus da história e o dos Evangelhos não é o mesmo. Apesar de ser um estudo em que tem várias linhas de investigação, não pressupõe a verdade concentrada na história porque o mesmo caso não é coincidente nos mesmos evangelhos, caso contrário o sermão da montanha não estaria totalmente ausente em Marcos, eis aqui um exemplo de que por não estar um discurso importantíssimo da doutrina de Jesus em marcos, não significa a real ausência de Cristo.

                Contudo privilegia-se a forma segura de encontrar uma Cristologia baseada na história como infalível, mas o contraponto é o racionalismo extremista como que só aquilo que é materialmente palpável é considerado verdade. Não é suficiente. Mais tarde é A.Scheweitzer que confere esta tese precisamente.

               

                Por conseguinte, surgem novas tentativas de fundar um conhecimento minucioso sobre a Pessoa de Jesus, entramos aqui na “NO QUEST” 1921- 1953

                Aqui a personagem principal e aquela à qual contribui fundamentalmente para exegese é Bultmann (1884 – 1976) afirmando que o importante é o Kerygma, isto é, o que ficou de Jesus para os homens, o que os homens, na sua livre escolha de adesão ao Cristo, reteram da sua mensagem. É suficiente para o teólogo não a história completamente fincada pormenorizadamente em Jesus, mas sim, acolher a intenção e a profundidade como os autores e testemunhas, nos transmitem o que Jesus diz de Si e nos ensina.

                Aqui vemos essencialmente um descrédito intencional no autor, fazendo com que só era válido aquilo que era kerigmático e que descredibiliza uma boa parte daquilo que está nos Evangelhos pois estes são o suporte do próprio Kerygma. A sagrada escritura não deve ser lida de forma cientifica, até porque não é um livro cientifico, é uma história de um Povo e que deve ser lido e interpretado com base naquilo que é um conjunto de parâmetros que fazem parte daquele tempo, por exemplo, é preciso ter em conta os recursos literários, o estilo de vida, a própria cultura, os próprios recursos estilísticos, ou seja, não pode ser interpretada “à letra”.

 

                Posteriormente a esta fase, a “NEW QUEST” em que Kasemann (discípulo de Bultmann) se demarca um pouco da linha de pensamento do seu mestre. O teólogo começa por notar que está a criar-se em torno do evento de Jesus Cristo, uma espécie de mito onde nem sequer é história, e que corre o risco de ser tomado como um conto de fadas por não ter um fundamento histórico (ou não) que o sustente. O Jesus histórico é o mesmo Cristo da fé pois os evangelhos não são palavras soltas e à deriva, elas são conquanto para ser interpretadas à luz da fé em Cristo que é o mesmo Jesus histórico e revelado pela fé. É aqui que se tenta diluir o Kerygma com a história, lida e relida desde o Antigo Testamento até Jesus.

                De realçar nesta fase, que a nova maneira de interpretar, ler e reler tudo aquilo que diz respeito ao evento de Jesus, a interpretação do seu próprio evento deve ser feito pelo critério da dupla dissemelhança: aquilo que é original e incontestável da pessoa de Jesus, a partir daqui, é necessário situa-lo no contexto da época, Jesus era Judeu, cresceu e viveu como homem que era.

 

                Finalmente, entramos na última fase, aquela que denominamos por “THIRD QUEST

                Aqui surge um esforço de interpretar a figura de Jesus não a partir das descontinuidades, mas interpretar ao seu tempo e sua cultura vivida na época. Não é possível chegarmos a uma definição concreta sobre a pessoa de Jesus, senão tivermos por detrás, uma fonte de sustento no ponto de vista histórico que o permita situar e conhece-lo devidamente no contexto atual, isto é, nos dias de hoje. A posição teológica, e de certa forma escatológica, é posta em causa devido ao extremismo que há em sintetizar absolutamente aquilo que pela Sua divindade o homem não consegue. Em que por um lado, não há fonte segura dos fatos, até porque todo o mistério de Jesus só é devidamente interpretado depois da sua paixão, morte e ressurreição, logo supera todas as tentativas concretas de justificar o Jesus histórico como infalivelmente seguro. O que podemos tomar como Seguro, é a Sua Palavra que não pode falhar e em todo o caso, mantém o mistério em aberto, não se fecha, pois, nem isso depende de nós.

 

KERYGMA – Tratam-se das interpretações sistemáticas da pessoa e obra de Jesus Cristo no decurso da inteira história da Igreja.

 

Cristologia Implícita – refere-se a afirmações que, no contexto em que se encontram, aludem de forma codificada ao ser e ao agir de Jesus. É também chamada de Cristologia indireta, pois contém apenas alusões indiretas, a partir das quais, por meio de uma série de conclusões se supõe a unicidade de Jesus.

Cristologia Explícita – refere-se ás afirmações que exprimem a dignidade e divindade de Jesus e é também chamada cristologia direta, pois afirma de modo direto e por meio de termos claros a unicidade de Jesus Cristo.

 

Cristologia Dogmática – refere-se ás definições da pessoa e atuação de Jesus Cristo propostas pelo magistério eclesiástico. O seu ponto de partida são os dogmas, isto é, as formulações vinculantes, propostas pelo magistério geralmente em momentos de crise como a reação à negação de uma verdade central no campo cristológico.

 

Cristologia Especulativa – refere-se a hipóteses teológicas acerca da pessoa e obra de Jesus Cristo. O objetivo destas teorias consiste em trazer uma nova luz e maior compreensão à identidade de Jesus Cristo; são certas interpretações e determinados modelos cristológicos, elaborados e propostos seja por teólogos individualmente, seja por escolas teológicas no decurso da história eclesiástica, desde a patrística até ao presente.

 

Cristologia do Alto e do Baixo

 

                Existe uma mútua reciprocidade e inclusão entre o Filho feito Homem e, Jesus e o homem Jesus exaltado junto de Deus. Importa reencontrar aquela acentuação que o ponto de partida parece esquecido, isto é, a cristologia do alto parte da perfeita divindade de Jesus para alcançar a Sua perfeita humanidade, enquanto a cristologia de baixo parte da perfeita humanidade de Jesus para chegar à Sua perfeita divindade.

 

                O Contexto de Jesus Cristo: situação social, político e religioso

                A economia palestinense baseava-se na agricultura e na manufatura. Os principais produtos eram o grão, azeite, fruta, hortaliças, pesca e gado (ovelhas e cabras). Sobre as propriedades, casas e terrenos pagava-se ao que hoje chamamos de IMI, o imposto religioso pagava-se no templo, pois todo o Varão hebreu adulto tinha que pagar ao templo dois dracmas por ano (o equivalente a dois dias de trabalho de um agricultor).

                Enquanto sociedade e família, os ricos viviam em cidades helenizadas, sedes do governo e da administração romana, por contraste aos ricos, os pobres era uma classe composta por trabalhadores temporários.

                Os fariseus, escrupulosos observantes da Lei (Torah) odiavam e desprezavam as gentes incultas pois nem eram considerados para eles israelitas e incapazes de cumprir a Lei. A mulher não gozava de relevância social nem lhe era ensinada a Lei; uma mulher casada que tivesse relações intimas com homem solteiro era considerada adultera e morta à pedrada, enquanto o contrario não se verificava, o testemunho de uma mulher não era tido em conta; o chefe da família era o homem a quem competia a educação dos filhos;

                O divórcio havia sido permitido por Moisés e tolerado na forma de repúdio da mulher por parte do Homem em razão de motivos sérios.

 

                A vida Religiosa fazia-se me torno da Sinagoga do lugar e do templo de Jerusalém. Todos os sábados tinha lugar o rito sinagogal, que era uma espécie de liturgia da palavra. Todos tomavam parte, mas apenas os homens adultos podiam ser convidados a ler textos da Lei e os profetas e, conforme os casos, a fazer um comentário ou homilia (MIDRASH).

                O Sábado era o centro de vida religiosa judia. O Shabbat (que vem de repousar) exigia a escrupulosa observância do repouso que permitia a participação na liturgia sinagogal e a leitura da Torah.

                Falemos finalmente, do Sinédrio como o órgão jurídico-religioso mais importante na vida de Israel. Tinha competências em todas as questões de direito religioso e direito civil e nele estavam representadas todas as classes dominantes: 70 membros no total, sob a presidência do sumo-sacerdote. Este, ainda que investido no cargo pelos romanos, continuava a ser o representante máximo do povo Judeu. O Sinédrio era formado pelos sacerdotes superiores (o sumo-sacerdote, os seus predecessores e alguns outros titulares de altos cargos sacerdotais), pelos anciãos e pelos escribas.

 

                A Situação Sociopolítica.

                O estudo de uma situação sociopolítica do tempo de Jesus é um fator, entre os quais, determinantes naquilo que é, a busca sobre uma identidade que contribui na reflexão acerca de pessoa de Jesus. A cultura, a história do Seu povo, a geografia da Sua Vida, a Sua língua, o ambiente social do seu tempo, as tensões que existem a nível político são aqueles fatores que podem contribuir fundamentalmente para um estudo histórico que permita a viabilização de uma identidade concreta sobre Jesus. É importante também, interpretar aqui a forma como Jesus se entende a si próprio e ao sentido do seu dever não é alheio ao contexto do Seu tempo, ao contexto do Seu povo. Jesus vive sob os costumes da tradição judaica e Israelita e por isso, podemos admitir que a mensagem de Jesus, os gestos de Jesus, as opções que foi assumindo tomaram uma determinada configuração também sob o influxo dessa envolvente.

                A situação religiosa, é talvez o fator que mais determina a possibilidade de ler e reler a pessoa de Jesus à luz do Antigo Testamento como Aquele que é o enviado do Pai. É sabido que Jesus cresce sob os costumes da tradição judaica, é circuncidado, participa na Sinagoga e inclusive ele é o próprio Halaka e Haggadah da Lei. O próprio Jesus parece estar sempre na evidência da sua divindade e na reticência da sua humanidade, ou seja, Jesus é a Palavra e não há ninguém que a interprete tal como Ele e isso faz com que ele se faça a própria Torah, a própria Lei, a convicção que para Jesus, a Lei se concretize n´Ele e para que se cumpra toda escritura na integra. Jesus parece evidenciar sempre a clareza da Escritura n´Ele mesmo.

                «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc4,21)

                Neste sentido, o contexto religioso é o que mais diz da sua pessoa e consequentemente é o que mais contribui para um estudo centrado na sua própria cristologia, isto é, Jesus faz-se entender por Si mesmo e nos mostra a sua própria Teologia.

 

 

Os mistérios da Vida de Jesus Cristo

 

                A mensagem de Jesus

                Todos os ensinamentos da vida de Jesus, servem todos eles como encíclicas, isto é, é para circular sobre as comunidades primitivas e até aos dias de hoje. Todo o discurso de Jesus está voltado para o reino dos céus ou até mesmo para o reino de Deus. Aqui trata-se de uma análise pessoal e é inegável que possamos de falar de Sua pessoa enquanto humano, ou seja, Jesus vai adequar o seu discurso consoante os auditórios que tem e tenta balancear a sua divindade com a sua natureza humana. Todo o mistério de Jesus Cristo, é preciso ter em conta a sua vida e sua morte e, nesta medida, o mistério da sua mensagem até à ressurreição desdobra-se na história da sua vida terrena. É extremamente importante salientar a relação filial com Deus, mais tarde denominado com ABBA (Paizinho) e neste sentido, a mensagem primordial de Jesus destaca-se com o anúncio de um Deus paterno e misericordioso.

                Jesus adequa o seu discurso usando como um meio as Parábolas – grandes ensinamentos morais em poucas palavras e que coloca a pessoa, numa relação ao Reino de Deus, num plano a perdição e a salvação, ou seja, entre o pecado e a vida. Todo o discurso de Jesus é escatológico, que coloca a vida e a morte como escolha livre de cada um.

                Podemos constatar que por um lado, Jesus Sapiencial – sábio e profeta, isto é, alguém conhecedor não apenas dos ritmos de vida, mas também sobretudo em todo discurso seguro sobre as verdades do reino de Deus.

                  A mensagem de Jesus também se prende a diálogos ou discussões e é ele que escolhe os seus seguidores ao contrário dos outros ditos mestres que permitiam que fossem escolhidos para ensinar. Jesus age de modo autêntico tanto no seu discurso, como modo de vida a seguir que implica o desprendimento de tudo. Vemos a parábola do Jovem rico que para ter a vida eterna teria que doar todos os seus bens e segui-lo sem mais, um desprendimento total.

                A criação de discipulado no crente torna evidente que o anseio mais profundo de Jesus era a comunhão, era o convívio, dito de outra maneira, era o desejo mais profundo de celebrar a páscoa com os seus e é aqui o foco de toda a dinâmica do anúncio do Reino. É assim que Jesus ama, entregando-Se incondicionalmente ao próximo pois “Se Ele não tivesse amado, não teria morrido” (Santo Afonso de Ligório). Jesus é consubstancialmente o Pai.

                Jesus dirige o Seu discurso a quem a Sua presença se tornara um incómodo, Jesus procura o diálogo que por muitas vezes termina em polémica como por exemplo o Sábado, em que os Fariseus afirmavam como prioridade sobre todas as coisas e Jesus vem dizer que é o Sábado para a pessoa e não a pessoa para o Sábado. Ou seja, Jesus para além de autoridade, trazia consigo o verdadeiro sentido da Lei, porque a Lei liberta, não oprime, pelo contrário, auxilia a amar melhor. Jesus mostra uma enorme liberdade relativamente ao Status Quo do seu tempo, Livre até para radicalizar certos aspetos da Lei de Moisés. Um outro assunto polémico era a posição da mulher quase vista como sem valor e Jesus remete-nos para o Génesis, a criação do homem e mulher são iguais no valor para Deus. Por esta razão o Jesus dos diálogos parece revestido de emitir uma palavra que tem força original, isto é, evidencia o seu conhecimento profundo sobre a Lei e nesta medida, não há palavra que passe indiferente na vida de cada um que o confronta.

                 Jesus nos seus ditos e ensinamentos, começamos por constatar em Mc que o tempo se cumprira, que está próximo o Reiono dos Céus (Mc1,15), o Reino é Jesus – carácter teológico, não é propriamente um reino utópico, isto é, sem pés e cabeça. O Reino dos céus ou de Deus é real, pode ser vivido aqui e agora. Jesus é o interprete da Lei qualificado, o qual só Ele sabe entender como ninguém, de outra maneira Ele não seria o Verbo encarnado, o Messias que havia de vir.

                Jesus, embora conhecendo a Lei, propõe algo diferente, que amemos até os nossos inimigos (Cf. 5,44), esta autoridade e novidade de “mandamento novo” é absolutamente original e encarado por muitos como o «Novo Moisés», tal como no Sinai, Deus revela a Torah, Jesus agora revela o Evangelho, passamos num discurso de 3ª pessoa para o discurso em 1ª pessoa por excelência que é Jesus, a personificação da Lei pois a forma como Jesus fala em nome de Deus aproxima-o do perfil de profeta e o profeta é aquele cujo a Palavra de Deus vive em comunhão com Ele – caracter teleológico.

 

                Os milagres são certamente um tema que chama deveras atenção, e que recai a pique sobre a verdadeira personalidade e identidade de Jesus. Não faz sentido um discurso sobre o Reino de Deus se isso não trouxer consigo uma clarividência para os seus contemporâneos, isto é, o que Jesus anuncia em palavras, comprova-o com gestos e fá-lo não de modo isolado, mas em público. Os milagres são ações extraordinárias e taumatúrgicas que maravilham os demais do Seu tempo. Existem ao longo dos Evangelhos alguns desses sinais que pressupõem o Reino de Deus junto do Seu povo. Para Marcos os milagres tendem a ilustrar o combate e a vitória de Jesus sobre o poder de Satanás; em Mateus os milagres ordenam-se e subordi a-se à palavra de Jesus; em Lucas, os milagres mostram Jesus como o grande benfeitor e como profeta do final dos tempos; em João, os milagres são sinais que, compreendidos na fé, apresentam Jesus como revelação evidente de Deus.

                A abordagem deste tema não pode ser feita de modo científico, mas ser lido e relido à mentalidade da época em que era entendido como intervenção de Deus pois está intimamente ligado à Sagrada Escritura sob o ponto de vista escatológico, como que sinais ou realidades do Reino.

                Os milagres, sob a identidade de Jesus, surgem por um lado como prova de que havia se realizado em Jesus a ação salvífica de Deus, e por outro, a confirmação da sua pregação em detrimento das expetativas do Messias no Antigo Testamento, isto é, que Deus viria para salvar o Seu povo. Numa certa linha de continuidade sob os milagres, é importante falarmos do perdão e se Jesus perdoa, confere autoridade para tal, o que pressupõe Deus misericordioso, o mesmo que se revela no Jesus da compaixão.

               

                As refeições assumem aqui também, um lugar ou local central no anúncio da sua mensagem. Em primeiro lugar, as refeições ganham outra dimensão precisamente pelo banquete definitivo profetizado no Antigo Testamento. Sabendo que era altamente inviolável a “mistura” dos ditos santos defensores da Lei com os pecadores e publicanos, é precisamente esses que Jesus se encontra à mesa. É aqui, aquela que eu identifico como mais bela reconquista de Deus sobre o Homem porque se Deus chama, assim Jesus os resgata e evidencia a Eucaristia – reconciliação da comunhão do homem em Deus. Esta é a Paixão do Senhor.