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quinta-feira, 11 de junho de 2020

Jesus Cristo: História e Teologia

Jesus Cristo: História e Teologia

A questão de Jesus Histórico.

                Nos inícios do Cristianismo, não existiu propriamente a necessidade de evidenciar a real existência de Jesus, mas sim dar continuidade à Sua Obra. De facto, Foi em Milão que se deu por determinado e terminada a perseguição aos Cristãos sob a complacência de Constantino, ano 313 (Édito de Milão), até lá os primeiros cristãos viviam sobre o medo de se declararem e se mostrarem como os verdadeiros Cristãos – seguidores de Jesus, o Cristo.

                Esta área de estudo, defronta-se sobretudo aquilo que é a questão cristológica de Jesus, ou seja, de que modo passou a ser entendido e compreendido à luz da fé, o próprio Deus encarnado, todos os demais títulos: Filho do Homem, Rabi/Mestre, Salvador, Senhor e ainda reconhece-Lo por diversas fontes, como tal. A Cristologia prende-se, portanto, pelo estudo da verdadeira identidade de Jesus, como também compreender o seu papel como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

                A Cristologia nasce já no seio dos apóstolos pelo fascínio e espanto da presença de Jesus, mas é na ressurreição que tudo parece começar a ganhar alicerces e bases para dar continuidade do Seu Mandamento: «Ide por todo mundo, pregai o Evangelho a toda criatura» (Mc 16,15) pois, «Eu estarei convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28,20). É aqui que as primeiras comunidades percebem e começam a entender a pessoa de Jesus Cristo á luz do Antigo Testamento, Aquele que viria para salvar o seu povo.

                A cristologia vai andar em torno dos acontecimentos, quer da historicidade de Jesus como também o seu kerygma. A Palavra de Jesus é infindável e está para lá da compreensão humana, é uma palavra que convoca e nos convida ao seu seguimento e apostolado, à semelhança da Palavra que se espelha no Antigo Testamento ( que é a mesma por excelência), ou seja, Deus servindo-se da linguagem humana, cria nos profetas a inspiração da Sua Palavra e os Chama desde sempre ao Seu amor.

                O estudo baseado na Sua Cristologia, leva-nos ao conhecimento na iluminação que é a fé em Cristo Ressuscitado toda a base e sustento. Não é possível conceber uma cristologia senão tivermos como base tudo aquilo que é inerente à pessoa de Jesus. O ponto central que hoje continua a ser chamativo e a atrair todas as atenções no Cristianismo, é o evento Pascal, é a Páscoa que torna evidente e crente de quem na verdade se trata a pessoa de Jesus, Aquele que dá a vida pelos seus e arranca do coração do homem, tudo aquilo que é extraordinário ao ponto de se entregar livremente ao amor pelo próximo.

                Se a ressurreição é entendida como o ponto fulcral na história do Cristianismo, não admira que a verdadeira Páscoa só se entenda numa reflexão cristológica, onde a continua-descontinuidade ou a descontinua-continuidade de todo o evento de Jesus, é ainda hoje permanente na vida do crente. Jesus deve ser analisado na perspetiva pré e pós pascal, isto é, a ressurreição só se compreende tendo como base todo o evento histórico e teológico da pessoa de Jesus de Nazaré.

 

                As fontes da Cristologia são altamente verificáveis por exemplo nos Evangelhos Sinóticos, que são aqueles textos dos apóstolos que apesar de serem semelhantes naquilo que é os acontecimentos das ações mais marcantes e deslumbrantes de Jesus, e que não conseguem deixar dúvida da evidência da divindade (ensinamentos, milagres exorcismos, etc) também têm as suas divergências naquilo que é semântica, aspetos culturais e também no que toca a Fonte “Q”, a fonte à qual só os evangelistas tiveram acesso. No entanto, numa análise histórica até aos dias de hoje, verificamos alguns avanços sobre o estudo e clarividência da pessoa de Jesus.

Não há muito tempo, coloca-se a First/Old Quest 1778-1906.

 

                Surge como tentativa de entender Jesus numa relação histórico-Kerygmática de forma puramente racionalista e metódica. A figura mais simbólica neste tempo é Reimarus afirmando que a razão é suficiente para alcançar a fé e o conhecimento da pessoa de Jesus, isto é, o Jesus da história e o dos Evangelhos não é o mesmo. Apesar de ser um estudo em que tem várias linhas de investigação, não pressupõe a verdade concentrada na história porque o mesmo caso não é coincidente nos mesmos evangelhos, caso contrário o sermão da montanha não estaria totalmente ausente em Marcos, eis aqui um exemplo de que por não estar um discurso importantíssimo da doutrina de Jesus em marcos, não significa a real ausência de Cristo.

                Contudo privilegia-se a forma segura de encontrar uma Cristologia baseada na história como infalível, mas o contraponto é o racionalismo extremista como que só aquilo que é materialmente palpável é considerado verdade. Não é suficiente. Mais tarde é A.Scheweitzer que confere esta tese precisamente.

               

                Por conseguinte, surgem novas tentativas de fundar um conhecimento minucioso sobre a Pessoa de Jesus, entramos aqui na “NO QUEST” 1921- 1953

                Aqui a personagem principal e aquela à qual contribui fundamentalmente para exegese é Bultmann (1884 – 1976) afirmando que o importante é o Kerygma, isto é, o que ficou de Jesus para os homens, o que os homens, na sua livre escolha de adesão ao Cristo, reteram da sua mensagem. É suficiente para o teólogo não a história completamente fincada pormenorizadamente em Jesus, mas sim, acolher a intenção e a profundidade como os autores e testemunhas, nos transmitem o que Jesus diz de Si e nos ensina.

                Aqui vemos essencialmente um descrédito intencional no autor, fazendo com que só era válido aquilo que era kerigmático e que descredibiliza uma boa parte daquilo que está nos Evangelhos pois estes são o suporte do próprio Kerygma. A sagrada escritura não deve ser lida de forma cientifica, até porque não é um livro cientifico, é uma história de um Povo e que deve ser lido e interpretado com base naquilo que é um conjunto de parâmetros que fazem parte daquele tempo, por exemplo, é preciso ter em conta os recursos literários, o estilo de vida, a própria cultura, os próprios recursos estilísticos, ou seja, não pode ser interpretada “à letra”.

 

                Posteriormente a esta fase, a “NEW QUEST” em que Kasemann (discípulo de Bultmann) se demarca um pouco da linha de pensamento do seu mestre. O teólogo começa por notar que está a criar-se em torno do evento de Jesus Cristo, uma espécie de mito onde nem sequer é história, e que corre o risco de ser tomado como um conto de fadas por não ter um fundamento histórico (ou não) que o sustente. O Jesus histórico é o mesmo Cristo da fé pois os evangelhos não são palavras soltas e à deriva, elas são conquanto para ser interpretadas à luz da fé em Cristo que é o mesmo Jesus histórico e revelado pela fé. É aqui que se tenta diluir o Kerygma com a história, lida e relida desde o Antigo Testamento até Jesus.

                De realçar nesta fase, que a nova maneira de interpretar, ler e reler tudo aquilo que diz respeito ao evento de Jesus, a interpretação do seu próprio evento deve ser feito pelo critério da dupla dissemelhança: aquilo que é original e incontestável da pessoa de Jesus, a partir daqui, é necessário situa-lo no contexto da época, Jesus era Judeu, cresceu e viveu como homem que era.

 

                Finalmente, entramos na última fase, aquela que denominamos por “THIRD QUEST

                Aqui surge um esforço de interpretar a figura de Jesus não a partir das descontinuidades, mas interpretar ao seu tempo e sua cultura vivida na época. Não é possível chegarmos a uma definição concreta sobre a pessoa de Jesus, senão tivermos por detrás, uma fonte de sustento no ponto de vista histórico que o permita situar e conhece-lo devidamente no contexto atual, isto é, nos dias de hoje. A posição teológica, e de certa forma escatológica, é posta em causa devido ao extremismo que há em sintetizar absolutamente aquilo que pela Sua divindade o homem não consegue. Em que por um lado, não há fonte segura dos fatos, até porque todo o mistério de Jesus só é devidamente interpretado depois da sua paixão, morte e ressurreição, logo supera todas as tentativas concretas de justificar o Jesus histórico como infalivelmente seguro. O que podemos tomar como Seguro, é a Sua Palavra que não pode falhar e em todo o caso, mantém o mistério em aberto, não se fecha, pois, nem isso depende de nós.

 

KERYGMA – Tratam-se das interpretações sistemáticas da pessoa e obra de Jesus Cristo no decurso da inteira história da Igreja.

 

Cristologia Implícita – refere-se a afirmações que, no contexto em que se encontram, aludem de forma codificada ao ser e ao agir de Jesus. É também chamada de Cristologia indireta, pois contém apenas alusões indiretas, a partir das quais, por meio de uma série de conclusões se supõe a unicidade de Jesus.

Cristologia Explícita – refere-se ás afirmações que exprimem a dignidade e divindade de Jesus e é também chamada cristologia direta, pois afirma de modo direto e por meio de termos claros a unicidade de Jesus Cristo.

 

Cristologia Dogmática – refere-se ás definições da pessoa e atuação de Jesus Cristo propostas pelo magistério eclesiástico. O seu ponto de partida são os dogmas, isto é, as formulações vinculantes, propostas pelo magistério geralmente em momentos de crise como a reação à negação de uma verdade central no campo cristológico.

 

Cristologia Especulativa – refere-se a hipóteses teológicas acerca da pessoa e obra de Jesus Cristo. O objetivo destas teorias consiste em trazer uma nova luz e maior compreensão à identidade de Jesus Cristo; são certas interpretações e determinados modelos cristológicos, elaborados e propostos seja por teólogos individualmente, seja por escolas teológicas no decurso da história eclesiástica, desde a patrística até ao presente.

 

Cristologia do Alto e do Baixo

 

                Existe uma mútua reciprocidade e inclusão entre o Filho feito Homem e, Jesus e o homem Jesus exaltado junto de Deus. Importa reencontrar aquela acentuação que o ponto de partida parece esquecido, isto é, a cristologia do alto parte da perfeita divindade de Jesus para alcançar a Sua perfeita humanidade, enquanto a cristologia de baixo parte da perfeita humanidade de Jesus para chegar à Sua perfeita divindade.

 

                O Contexto de Jesus Cristo: situação social, político e religioso

                A economia palestinense baseava-se na agricultura e na manufatura. Os principais produtos eram o grão, azeite, fruta, hortaliças, pesca e gado (ovelhas e cabras). Sobre as propriedades, casas e terrenos pagava-se ao que hoje chamamos de IMI, o imposto religioso pagava-se no templo, pois todo o Varão hebreu adulto tinha que pagar ao templo dois dracmas por ano (o equivalente a dois dias de trabalho de um agricultor).

                Enquanto sociedade e família, os ricos viviam em cidades helenizadas, sedes do governo e da administração romana, por contraste aos ricos, os pobres era uma classe composta por trabalhadores temporários.

                Os fariseus, escrupulosos observantes da Lei (Torah) odiavam e desprezavam as gentes incultas pois nem eram considerados para eles israelitas e incapazes de cumprir a Lei. A mulher não gozava de relevância social nem lhe era ensinada a Lei; uma mulher casada que tivesse relações intimas com homem solteiro era considerada adultera e morta à pedrada, enquanto o contrario não se verificava, o testemunho de uma mulher não era tido em conta; o chefe da família era o homem a quem competia a educação dos filhos;

                O divórcio havia sido permitido por Moisés e tolerado na forma de repúdio da mulher por parte do Homem em razão de motivos sérios.

 

                A vida Religiosa fazia-se me torno da Sinagoga do lugar e do templo de Jerusalém. Todos os sábados tinha lugar o rito sinagogal, que era uma espécie de liturgia da palavra. Todos tomavam parte, mas apenas os homens adultos podiam ser convidados a ler textos da Lei e os profetas e, conforme os casos, a fazer um comentário ou homilia (MIDRASH).

                O Sábado era o centro de vida religiosa judia. O Shabbat (que vem de repousar) exigia a escrupulosa observância do repouso que permitia a participação na liturgia sinagogal e a leitura da Torah.

                Falemos finalmente, do Sinédrio como o órgão jurídico-religioso mais importante na vida de Israel. Tinha competências em todas as questões de direito religioso e direito civil e nele estavam representadas todas as classes dominantes: 70 membros no total, sob a presidência do sumo-sacerdote. Este, ainda que investido no cargo pelos romanos, continuava a ser o representante máximo do povo Judeu. O Sinédrio era formado pelos sacerdotes superiores (o sumo-sacerdote, os seus predecessores e alguns outros titulares de altos cargos sacerdotais), pelos anciãos e pelos escribas.

 

                A Situação Sociopolítica.

                O estudo de uma situação sociopolítica do tempo de Jesus é um fator, entre os quais, determinantes naquilo que é, a busca sobre uma identidade que contribui na reflexão acerca de pessoa de Jesus. A cultura, a história do Seu povo, a geografia da Sua Vida, a Sua língua, o ambiente social do seu tempo, as tensões que existem a nível político são aqueles fatores que podem contribuir fundamentalmente para um estudo histórico que permita a viabilização de uma identidade concreta sobre Jesus. É importante também, interpretar aqui a forma como Jesus se entende a si próprio e ao sentido do seu dever não é alheio ao contexto do Seu tempo, ao contexto do Seu povo. Jesus vive sob os costumes da tradição judaica e Israelita e por isso, podemos admitir que a mensagem de Jesus, os gestos de Jesus, as opções que foi assumindo tomaram uma determinada configuração também sob o influxo dessa envolvente.

                A situação religiosa, é talvez o fator que mais determina a possibilidade de ler e reler a pessoa de Jesus à luz do Antigo Testamento como Aquele que é o enviado do Pai. É sabido que Jesus cresce sob os costumes da tradição judaica, é circuncidado, participa na Sinagoga e inclusive ele é o próprio Halaka e Haggadah da Lei. O próprio Jesus parece estar sempre na evidência da sua divindade e na reticência da sua humanidade, ou seja, Jesus é a Palavra e não há ninguém que a interprete tal como Ele e isso faz com que ele se faça a própria Torah, a própria Lei, a convicção que para Jesus, a Lei se concretize n´Ele e para que se cumpra toda escritura na integra. Jesus parece evidenciar sempre a clareza da Escritura n´Ele mesmo.

                «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc4,21)

                Neste sentido, o contexto religioso é o que mais diz da sua pessoa e consequentemente é o que mais contribui para um estudo centrado na sua própria cristologia, isto é, Jesus faz-se entender por Si mesmo e nos mostra a sua própria Teologia.

 

 

Os mistérios da Vida de Jesus Cristo

 

                A mensagem de Jesus

                Todos os ensinamentos da vida de Jesus, servem todos eles como encíclicas, isto é, é para circular sobre as comunidades primitivas e até aos dias de hoje. Todo o discurso de Jesus está voltado para o reino dos céus ou até mesmo para o reino de Deus. Aqui trata-se de uma análise pessoal e é inegável que possamos de falar de Sua pessoa enquanto humano, ou seja, Jesus vai adequar o seu discurso consoante os auditórios que tem e tenta balancear a sua divindade com a sua natureza humana. Todo o mistério de Jesus Cristo, é preciso ter em conta a sua vida e sua morte e, nesta medida, o mistério da sua mensagem até à ressurreição desdobra-se na história da sua vida terrena. É extremamente importante salientar a relação filial com Deus, mais tarde denominado com ABBA (Paizinho) e neste sentido, a mensagem primordial de Jesus destaca-se com o anúncio de um Deus paterno e misericordioso.

                Jesus adequa o seu discurso usando como um meio as Parábolas – grandes ensinamentos morais em poucas palavras e que coloca a pessoa, numa relação ao Reino de Deus, num plano a perdição e a salvação, ou seja, entre o pecado e a vida. Todo o discurso de Jesus é escatológico, que coloca a vida e a morte como escolha livre de cada um.

                Podemos constatar que por um lado, Jesus Sapiencial – sábio e profeta, isto é, alguém conhecedor não apenas dos ritmos de vida, mas também sobretudo em todo discurso seguro sobre as verdades do reino de Deus.

                  A mensagem de Jesus também se prende a diálogos ou discussões e é ele que escolhe os seus seguidores ao contrário dos outros ditos mestres que permitiam que fossem escolhidos para ensinar. Jesus age de modo autêntico tanto no seu discurso, como modo de vida a seguir que implica o desprendimento de tudo. Vemos a parábola do Jovem rico que para ter a vida eterna teria que doar todos os seus bens e segui-lo sem mais, um desprendimento total.

                A criação de discipulado no crente torna evidente que o anseio mais profundo de Jesus era a comunhão, era o convívio, dito de outra maneira, era o desejo mais profundo de celebrar a páscoa com os seus e é aqui o foco de toda a dinâmica do anúncio do Reino. É assim que Jesus ama, entregando-Se incondicionalmente ao próximo pois “Se Ele não tivesse amado, não teria morrido” (Santo Afonso de Ligório). Jesus é consubstancialmente o Pai.

                Jesus dirige o Seu discurso a quem a Sua presença se tornara um incómodo, Jesus procura o diálogo que por muitas vezes termina em polémica como por exemplo o Sábado, em que os Fariseus afirmavam como prioridade sobre todas as coisas e Jesus vem dizer que é o Sábado para a pessoa e não a pessoa para o Sábado. Ou seja, Jesus para além de autoridade, trazia consigo o verdadeiro sentido da Lei, porque a Lei liberta, não oprime, pelo contrário, auxilia a amar melhor. Jesus mostra uma enorme liberdade relativamente ao Status Quo do seu tempo, Livre até para radicalizar certos aspetos da Lei de Moisés. Um outro assunto polémico era a posição da mulher quase vista como sem valor e Jesus remete-nos para o Génesis, a criação do homem e mulher são iguais no valor para Deus. Por esta razão o Jesus dos diálogos parece revestido de emitir uma palavra que tem força original, isto é, evidencia o seu conhecimento profundo sobre a Lei e nesta medida, não há palavra que passe indiferente na vida de cada um que o confronta.

                 Jesus nos seus ditos e ensinamentos, começamos por constatar em Mc que o tempo se cumprira, que está próximo o Reiono dos Céus (Mc1,15), o Reino é Jesus – carácter teológico, não é propriamente um reino utópico, isto é, sem pés e cabeça. O Reino dos céus ou de Deus é real, pode ser vivido aqui e agora. Jesus é o interprete da Lei qualificado, o qual só Ele sabe entender como ninguém, de outra maneira Ele não seria o Verbo encarnado, o Messias que havia de vir.

                Jesus, embora conhecendo a Lei, propõe algo diferente, que amemos até os nossos inimigos (Cf. 5,44), esta autoridade e novidade de “mandamento novo” é absolutamente original e encarado por muitos como o «Novo Moisés», tal como no Sinai, Deus revela a Torah, Jesus agora revela o Evangelho, passamos num discurso de 3ª pessoa para o discurso em 1ª pessoa por excelência que é Jesus, a personificação da Lei pois a forma como Jesus fala em nome de Deus aproxima-o do perfil de profeta e o profeta é aquele cujo a Palavra de Deus vive em comunhão com Ele – caracter teleológico.

 

                Os milagres são certamente um tema que chama deveras atenção, e que recai a pique sobre a verdadeira personalidade e identidade de Jesus. Não faz sentido um discurso sobre o Reino de Deus se isso não trouxer consigo uma clarividência para os seus contemporâneos, isto é, o que Jesus anuncia em palavras, comprova-o com gestos e fá-lo não de modo isolado, mas em público. Os milagres são ações extraordinárias e taumatúrgicas que maravilham os demais do Seu tempo. Existem ao longo dos Evangelhos alguns desses sinais que pressupõem o Reino de Deus junto do Seu povo. Para Marcos os milagres tendem a ilustrar o combate e a vitória de Jesus sobre o poder de Satanás; em Mateus os milagres ordenam-se e subordi a-se à palavra de Jesus; em Lucas, os milagres mostram Jesus como o grande benfeitor e como profeta do final dos tempos; em João, os milagres são sinais que, compreendidos na fé, apresentam Jesus como revelação evidente de Deus.

                A abordagem deste tema não pode ser feita de modo científico, mas ser lido e relido à mentalidade da época em que era entendido como intervenção de Deus pois está intimamente ligado à Sagrada Escritura sob o ponto de vista escatológico, como que sinais ou realidades do Reino.

                Os milagres, sob a identidade de Jesus, surgem por um lado como prova de que havia se realizado em Jesus a ação salvífica de Deus, e por outro, a confirmação da sua pregação em detrimento das expetativas do Messias no Antigo Testamento, isto é, que Deus viria para salvar o Seu povo. Numa certa linha de continuidade sob os milagres, é importante falarmos do perdão e se Jesus perdoa, confere autoridade para tal, o que pressupõe Deus misericordioso, o mesmo que se revela no Jesus da compaixão.

               

                As refeições assumem aqui também, um lugar ou local central no anúncio da sua mensagem. Em primeiro lugar, as refeições ganham outra dimensão precisamente pelo banquete definitivo profetizado no Antigo Testamento. Sabendo que era altamente inviolável a “mistura” dos ditos santos defensores da Lei com os pecadores e publicanos, é precisamente esses que Jesus se encontra à mesa. É aqui, aquela que eu identifico como mais bela reconquista de Deus sobre o Homem porque se Deus chama, assim Jesus os resgata e evidencia a Eucaristia – reconciliação da comunhão do homem em Deus. Esta é a Paixão do Senhor.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Antropologia Teológica Fundamental

Antropologia Teológica Fundamental

 

O Futuro Utópico e a Esperança Escatológica

                Efetivamente o Homem é um ser contínuo na história, que nasce e renasce conscientemente para a vida, isto é, vive sob a busca de um sentido pleno da vida. Quando falamos sobre a utopia, nada mais é que a construção de uma ideia originária do “perfeitamente possível e alcançável”, porém, a base de um pensamento utópico restringe-se demasiadamente sobre a razão, sobre um conhecimento técnico, sobre a certeza e domínio geral dependente e exclusivamente do Homem. Ora a plenitude e a perfeição, podem ser vividas aqui e agora projetando um futuro que dependa totalmente da mão humana. Esta conceção, ainda que seja imaginada não é concebível.

                De facto, é interessante que o homem re-conheça e tome consciência de um mundo perfeito, que re-conheca também a sua condição enquanto humano e reconhecendo isso, é importante notar que ao deparar-se com a sua debilidade e o seu limite, surja de forma inata e impressa em si, o ideial da perfeição como aquele que conhecemos como o Ser Absoluto – Deus. Portanto, a utopia não é totalmente má porque nos leva a admitir que não existe verdade ilusória suficiente capaz de ofuscar a verdadeira Verdade.

                Nesta medida, se considerarmos a nossa existência não propositada, a utopia não faz qualquer sentido, pois não detém e não atinge a plenitude, isto é, não faz sentido absolutamente nenhum criar uma história sem a qual não seria possível o alcance do infinitamente Bom e, por conseguinte, não haja uma re-ligação com esse infintamente Bom, dito de outra forma, fica a quem da verdadeira Plenitude porque essa é verdadeiramente inalcançável.  A utopia, sem querer, remete-nos para uma esperança sob a qual a Escatologia toma o seu lugar, mas de forma lógica e coerente, isto é, não se prende nem se fecha em si mesma.

                Neste sentido a Escatologia, assume a esperança ao invés da certeza “não fundamentada”. No contexto bíblico, desde o Antigo Testamento para o Novo Testamento, a esperança que se trata, é uma esperança salvífica e verdadeiramente dependente, isto é, Deus não teria necessidade de intervir na história da humanidade senão fossemos seus filhos. O homem assume a falta da perfeição porque Deus deixa impressa nele a sua marca, e é através d´Ele, que podemos confiar e esperar – certeza que vai acontecer, de outra forma não haveria revelação.

                A maneira mais humana de entender toda a revelação, é por intermédio de Jesus Cristo, aquele que é o “Khristós Ungido e o Enviado pelo Pai, é aquele quem de forma altamente humana abre portas para o céu, isto é, o reino e a comunhão com Deus e todos os seus santos. A antropologia do Homem está voltada para a Cristologia, ou seja, Jesus assume as duas naturezas e respeita-as, aceitando que lhe chamem o Filho do Homem e que por Ele todo o Homem é salvo. Esta mesma salvação encontra-se antes da sua vinda, Jesus é o mesmo Deus que falou pelos profetas ao Seu povo, é o mesmo Deus que os resgatou do Egipto e lhes prometeu uma nova aliança.

 

 

 

Escatologia Bíblica

A origem e desenvolvimento da Escatologia no Antigo Testamento

 

                Desde a origem do Homem, podemos verificar que existem relatos nas Sagradas Escrituras que tratam sobretudo de uma união na vivência com Deus, encontramos passagens em alguns livros do Antigo Testamento que marcam por um lado essa ligação e por outro lado, marcam o distanciamento (pecado) do Homem com Deus. Porém, o que na mente humana se torna a verdadeira surpresa e esperança, é que o verdadeiro Amor, Deus enquanto tal, é a misericórdia, ou seja, Deus não julga até porque já estamos julgados mas trata-se de um julgamento retornado para a salvação Cf.Gn 6, 17-18.

                Cada vez mais nos deparamos com essa liberdade de escolha nos dias de hoje, a escolha de Deus está feita desde sempre, a escolha do Homem é que vai vacilando no tempo. Ora se desde o inicio, Deus permanece continuamente com o Seu povo como fonte credível de esperança, mesmo sabendo a nossa condição de pecadores, não seria “agora” que deixaria de estar connosco, isto supõe que para Deus, o tempo não é circular e restrito dentro de uma história com principio, meio e fim, pelo contrário, é pela história de um povo que peregrina que faz desse tempo, o tempo da salvação sem fim. É extremamente importante deixar-se guiar no Tempo e Templo de Deus, ou seja, o tempo na história só faz sentido na vivência do Homem para o Sábado. O que é importante é viver sobre os preceitos de Javé, em que a história de vida de um povo que o exulta é permanente e continuado, o mundo não acabou para se fechar uma história que é por excelência a mais bela história da Salvação e que está totalmente fora das nossas mãos.

                É aqui que a esperança assume os seus maiores pilares ou alicerces, pois é precisamente aqui que Deus dá o tempo necessário no espaço para a Salvação. A intervenção de Deus na história da humanidade com o desejo da salvação, passa pelo juízo, em que este não é entendido nem encarado como uma punição ou castigo, mas assume antes disso um carácter terapêutico que nos ajuda a amar melhor – Lei (ToRAh). O Próprio Deus, é a “eschaton” da vida plena.

 

 

 

Vida, morte e Ressurreição no Antigo Testamento

 

                Vida

                Começando pelo seu próprio conceito, a vida é sinónimo de existência e como seres que existem, assume paralelamente o sinónimo de ter saúde, de ser saudável, que vive, que se manifesta e se relaciona. Todavia, a vida não deve restringir-se ao seu sentido meramente existencial, pois a vida é inexaurível, é o Bem supremo ao qual nos é dado – criação.

                Para o crente a vida é dom-de-Deus, isto é, não se resume apenas à sua biologia, é a vida de perpétua união com Deus e que se não for assim, cai num significado meramente existencial e sem sentido. Não ganha força nem convence qualquer crente, seja de que religião for porque toda ela (religião) trata sobretudo de uma tentativa de Religar ou Reler a nossa vida à sua origem.

                Morte

                A morte, significa antes de tudo, o fim de todo e qualquer tipo de existencialismo, é sinónimo de perda, de angústia, de tristeza, de escuridão, solidão, ausência de luz. No ponto de vista religioso, a morte pode parecer a incomunicação com Deus. No entanto, há aqui uma questão mais alta que se levanta, se Deus é fonte de toda a criação, é licito questionar se a morte é do Seu domínio? Será que Deus tem poder sobre a morte? – Sim.

                Sabemos que a morte é falta de conhecimento em contraste à vida, isto é, porque eu vivo, tenho perceção que estou animado por algo que me dá essa noção de vida, não no sentido estreito do existencialismo, mas enquanto ser também espiritual.

                Na Sagrada Escritura, temos vários relatos sobre a morte e é curioso que no Antigo Testamento, ela não é totalmente entendida como fim último. Verifica-se por exemplo no Livro de Job onde a morte tem um lugar chamado Scheol – «é o fogo que devora até à destruição e que arruinaria todos os meus bens» Job 31,12

                Para entendermos melhor este fenómeno de que se chama morte, daria uma tese longa e profunda sob o ponto de vista religioso e ético, mas no que toca ao Antigo Testamento, verificamos que a morte não é tão temerosa aos olhos daqueles que não encontram na sua vida, a causa de todas as causas – Deus. Ora se Deus é a fonte da vida, já que criador de todas as coisas (Gn1,1), é Aquele que permite a passagem da morte para a vida e vice-versa, ainda que, na sua infinita misericórdia não se canse de nos chamar à reconciliação para a vida eterna, a morte é apenas uma passagem. Claro está a evidência da sexta-feira Santa, de outro modo não haveria Páscoa, a passagem da morte para a vida e vida plena e em abundância. Contudo isto, leva a que admitamos em que a morte é real. A morte em Deus ganha outra dimensão, em que por um lado é a fé que nos salva (diversas passagens no Novo Testamento em que Jesus centra a fé como salvação) e por outro é a ausência de fé, ausência da esperança, a ausência de Deus que nos leva ao Scheol e morte esquecida.

                Segundo o Livro dos Juízes, é verificável, por uma análise exegética o esquema: PECADO-CASTIGO-CONVERSÃO-SALVAÇÃO. Significa, portanto, que entre os dois opostos, entre a vida e a morte, Deus permite que aprendamos com as nossas escolhas (modo por onde vem a nossa experiência) e graças à Sua Misericórdia, Ele educa o filho, indica o Caminho mostrando que a Verdade e a Vida só é alcançável se efetivamente O tivermos como o nosso guia. Se assim for, tudo o que é riqueza material ou tudo aquilo que é alheio à salvação, perderá todo o seu valor.

                Para Job e Jeremias, é altamente discutível quando nem sempre os factos coincidem com as evidências, ou seja, por muito que nos mantenhamos sobre os preceitos de Javé, nem sempre significa que o resultado seja previsível, isto não quer dizer que Deus se torne despreocupado ou ausente na nossa vida, não é isso que está em questão, mas sim o simples facto de que a consciência no Deus da bíblia, o Deus do Antigo Testamento, nasce no meio da hostilidade, angústia, onde ainda hoje, Ele continua a realizar a Sua obra porque não se cansa de chamar os Seus filhos, sem esquecer de nenhum. Mais uma vez, evidente está, que vivemos demasiadamente preocupados com o tempo que para Deus não existe e, por outro lado, continua a ser sempre melhor saber que a realidade de Deus é mais forte que qualquer angústia, ausência ou qualquer ceticismo, o mesmo é dizer que é Deus é Amor e consequentemente maior que a morte.

                Salmo 16, 49 e 73 vêm paulatinamente mostrar que de certa forma os salmistas viram a Deus.

 

 

 

 

A Fé na Ressurreição

 

                A ressurreição nos escritos do Antigo Testamento era vista em poucos casos, apenas em Ezequiel e Oseias se alude ao Deus que ressuscita e o único capaz de resgatar a vida da morte. No entanto, em Dan 12, nos versículos 2, 3 e 13, vemos claramente uma ressurreição voltada para o Homem como uma espécie de pressupostos que garantem a vida eterna, isto é, vivamos segundo os preceitos de Javé e teremos a glória de Deus. Efetivamente, Deus quebra as barreiras da morte em que por um lado se faz Homem, encarnando habitou entre nós (Cf. Jo 1-14) e por outro lado morre para a Vida, significa, portanto, que todo aquele que vive como Mártir – aquele que é fiel a Deus na vida e na morte, supõe a verdadeira passagem da morte para a Vida. Estamos perante a ressurreição, o que no fundo significa, o triunfo sobre a morte. Então Deus, é o autor da vida e da morte.

                A imortalidade nada tem a ver com a ressurreição da alma, no Livro da Sabedoria (Sab) a imortalidade é o Homem estar diante de Deus como agradecimento, na Graça e misericórdia.

 

 

 

A Escatologia no Novo Testamento

                O Novo Testamento só compreendido na sua plenitude, tendo por base toda a economia de salvação que existe no Antigo Testamento, isto é, tudo aquilo que é narrado e explicado pelos autores sagrados como verdadeira Palavra de Deus. Todo anúncio da Palavra de Deus fica por se completar precisamente porque é anunciado frequentemente a vinda de um Messias, que mais tarde se revela na pessoa de Jesus Cristo.

                Todo o discurso messiânico de Jesus está em torno de tudo aquilo que é o Reino dos céus, o Reino de Deus. Note-se que aqui, a palavra Reino, assume traços categóricos naquilo que são os Evangelhos Sinópticos como também na maior parte do discurso de Paulo e João, isto é, os apóstolos vão tentar decifrar que o Reino dos céus se encontra já e agora na pessoa de Jesus.

                Em primeiro lugar, é fundamental compreender em que medida Jesus é o Reino, em que medida Jesus assume e evidencia a Sua divindade, dito por outra forma, como Jesus faz parte e é da mesma substancia que o Pai (ABBA) mesmo sendo “O Homem”, e por ultimo, em que medida a Escatologia se centra e reincide na Pessoa de Jesus Cristo (Cristologia). Efetivamente, se Deus participa na história da humanidade como Aquele resgata da opressão, da violência, da escravidão o Seu povo e lhes promete uma nova aliança, podemos constatar que o Reino de Deus ganha alguns contornos naquilo que é liberdade no amor e obediência. (Cf Jer 31, 31-36).

                É em Jesus que mais evidente e claro se vê, a total obediência ao Pai, numa entrega e doação livre onde a relação Homem-Deus, está presente desde sempre numa relação entre Deus e o Seu povo. Jesus personifica toda a história e não deixa dúvidas quanto a isso em nenhum momento. O importante em todo este acontecimento é que o Reino de Deus não é algo meramente estático, é uma relação dinâmica em que Jesus é a mediação do homem com Deus.

                Em diversas passagens do Novo Testamento, Jesus alude muitas vezes, através parábolas e ensinamentos, ao Reino dos Céus que está próximo, que devemos arrepender e acreditar no Evangelho (cf.Mc 1,15), significa que o Reino dos Céus é permanentemente continuo e que não termina cronologicamente com a Sua vinda, significa pois, que é diante do Senhor, diante da presença divina mais evidente, que temos toda a esperança, que aquilo que era o Verbo, se torna a própria Palavra na pessoa de Jesus e que é por Ele e diante d´Ele que acontece a salvação – meta da escatologia. Significa que Jesus é Deus enquanto tal.

                A escatologia no Novo Testamento, não se prende, nem se compreende se for entendida no presente e no futuro como uma espécie de escolha. O tempo para o homem é cronológico, para Deus é o campo da Sua infinita misericórdia. Ora, se Jesus afirma que virá brevemente (Ap 22,20), o Reino de Deus é o tempo da salvação para o Homem, termina na parusia onde o Senhor virá para julgar os vivos e os mortos.

                Concluindo, significa que na história os dados escatológicos por excelência são

1-     --> A identificação da Promessa com a Palavra que promete

2-     --> A revelação do carácter divino-pessoal

3-     --> A sua encarnação em Jesus de Nazaré

4-     --> A sua manifestação gloriosa no final dos tempos

 

 

Escatologia Sistemática

 

Parúsia, Páscoa da Criação

 

                Em primeiro lugar importa sabermos o significado de parusia, que em muitos contextos pode significar a vinda, a proximidade, a presença do divino na terra. No contexto bíblico, nomeadamente NT, significa a vinda gloriosa de Cristo num sentido da consumação dos tempos, em que pressupõe um Juízo Final.

                Nos Evangelhos Sinóticos, encontramos a expressão da “vinda do Filho do Homem” (Mc13,16; Mt10,23; Lc18,8) que nos remete à pessoa de Jesus, como o «Enviado do Pai». Importa aqui falar que a Parúsia não é meramente uma definição de um acontecimento qualquer, é antes um acontecimento no tempo e na história, que é sempre maior do que as palavras para o descrever. Em certo sentido a Parusia assume um apoio e correlação da Escatologia, e dado que apesar de serem distintos, são inseparáveis, a história não pode ficar de fora, não é possível falarmos de escatologia ou parusia se não tivermos como base a história à qual alguém ou algo, nos interpele ao seu carácter revelador. No Novo Testamento, a vinda do Filho do Homem já era algo que fora profetizado pelos antigos profetas e que “hoje” acontece em Cristo Jesus a maior prova da existência de Deus, tanto que, não faria qualquer sentido o caracter revelador de Deus, senão assumir a compreensão humana, isto é, fazer-se Homem e participando na história como “O Homem”. Deus assume a Humanidade, e este é o acontecimento que ninguém esperava, o mesmo Deus que falou pela Sagrada Escritura usando a linguagem humana, é o mesmo Deus que assume a nossa natureza e se faz Servo.

                Assim, podemos dizer que toda a compreensão à volta do evento de Jesus Cristo (o Ungido) é escatologia do mesmo Deus que vai desde o inicio da criação até à Sua Páscoa (consumação), isto é, não se trata propriamente de um fim só porque atinge como limite a morte, mas é morrendo que se nasce e renasce para a vida propriamente dita.

                Fazer fiança em todos os acontecimentos, sinais e prodígios da intervenção de Deus na humanidade, é a própria parusia que se funda essencialmente na Cristologia, que vai sendo profetizada ao longo de todo o Antigo Testamento, e que esta não pode enganar pois o maior acontecimento é muito maior que a realidade – Jesus Cristo, Deus morre na Cruz para nos salvar e não há maior amor que dar a vida pelos seus amigos (Cf.Jo15,13).

                Jesus vem para salvar, Deus intervém na história para salvar, assim aconteceu no livro do êxodo, falamos do mesmo Deus objetivamente, a Salvação é feita pelo juízo, não um juízo “penal”, mas um juízo de misericórdia, que não é mais que o “tempo” que Deus permite à humanidade a conversão, que rigorosamente se trata do Seu chamamento.

 


 

A Ressurreição dos mortos


                Toda Escritura está direcionada e não é mais que uma linda introdução à Paixão do Senhor. Paulo é quem vive de forma exponencial, tudo aquilo que é a experiência da ressurreição, isto é, Paulo vive em paralelo a tudo aquilo que é o evento histórico da pessoa de Jesus Cristo, e é em Damasco se dá a maior controvérsia das suas ideias e convicções, enfim, cai por terra tudo aquilo que aprendeu e interpretou sobre a TORAH e tudo aquilo que tomava como infalível – o Farisaísmo.

                Paulo é confrontado com a dureza do seu coração, pela bruta perseguição contra o povo de Deus, pelo mesmo Deus que é Jesus Cristo, o mesmo que liberta o seu povo das mãos opressoras e escravizadoras dos reis do Egipto e Israel. Claro está que Deus escreve direito por linhas tortas e serve-se de Paulo para Evangelizar, isto é, levar a boa-noticia de que Deus vive e está no meio de nós. Não se trata de informar, mas sim levar a todos os povos a experiência de um Deus que reencarna e que vive em primeira pessoa, Jesus Cristo. A Morte não se dá em Deus.

                A estratégia de Paulo de levar a boa-nova aos povos mais cultos, digamos assim, é porque ele dominava aquilo que é um conjunto de línguas e recursos estilísticos capaz de entender e fazer entender ao destinatário, toda a sua mensagem. Estamos a falar de um poliglota persuasor da sua mensagem. Não admira o Apóstolo dirigir-se ás comunidades gregas em que pelo menos afirmavam e reconheciam o homem, como aquele que era composto de corpo e alma. É de fato uma ideia que hoje está ultrapassada pois toda a antropologia humana recai numa antropologia cristológica, isto é, o homem só se compreende à luz de Cristo – o ressuscitado. A vida só tem sentido num plano salvífico, pois se assim não fosse era preferível a não-consciência de semelhante.

                Curiosamente é uma das caraterísticas da Cristologia Paulina. Tudo ganha maior dimensão naquilo que hoje denominamos de Mistério Pascal, ou seja, a Páscoa só se compreende à luz de Cristo, pois à semelhança em que Deus, pela Sagrada Escritura, pelos Santos Profetas, pede para que se marque em cada casa o Sangue do Cordeiro como sacrifício e oferenda do Povo a Deus (Cf.Ex 12,7) é assim entendido o mistério pascal em que o cordeiro de Deus é o próprio Jesus que se entrega pela humanidade como oferenda de salvação a todos os Homens. Cumprimos ainda nos dias de hoje, o facto de recebermos Deus nas nossas casas e consequentemente nas nossas vidas.

                Em Cristo não existe a morte, não podemos falar de ressurreição senão tivermos em plena consciência que a existência de Jesus ultrapassa toda a dimensão humana (ainda que a respeite e balancei a sua divindade com a Sua e nossa humanidade) e que é n´Ele que se dá toda a plenitude de Deus no carácter salvífico, isto é, Jesus é a prova que Deus tem o poder sobre a vida e a morte.

                A Igreja nos dias de hoje, é aquela que em bom rigor se trata da nova aliança, isto é, todos aqueles na sua liberdade acolhem o Deus vivo e são parte integrante daquilo que é Corpo de Cristo. Cristo é a unidade, é através d´Ele e por Ele que se dá a nova aliança da relação filial do Homem com Deus.

 

 

 

 

A Nova Criação

 

                Aqui coloca-se a questão de como será a nova criação, ou seja, se Deus atua na história da humanidade, espera-se, portanto, que será uma história em que o seu propósito é a própria comunhão com e em Deus. Não podemos esperar um mundo fictício onde este não tenha qualquer importância ou relevância para o mesmo Deus que salva, pois caso contrário não há “genesis” que resista. Todo pormenor da criação seria completamente em vão ou alheio à própria criação se esta não fosse vista para a ressurreição, isto é, sem cair numa espécie de naturalismo exagerado, o mundo é feito para a ressurreição, para uma nova vida enquanto tal, é precisamente Cristo que rompe com as portas do fim da vida propriamente dito, é em Cristo que se dá o (re)surgimento de uma nova aliança, não só com o mundo mas também naquilo que é a relação do Homem-Deus. É a (re)criação do jardim do éden.

                Portanto, toda a conceção de nova criação não pressupõe a destruição de um mundo e a criação de outro, mas sim, a vida vista como gratuidade do Amor de Deus onde a vida perfeita coincide com a vida plena, a vida em Cristo.