Jesus Cristo:
História e Teologia
A questão de Jesus Histórico.
Nos
inícios do Cristianismo, não existiu propriamente a necessidade de evidenciar a
real existência de Jesus, mas sim dar continuidade à Sua Obra. De facto, Foi em Milão que se deu por determinado e
terminada a perseguição aos Cristãos sob a complacência de Constantino, ano 313
(Édito de Milão), até lá os primeiros cristãos viviam sobre o medo de se
declararem e se mostrarem como os verdadeiros Cristãos – seguidores de Jesus, o
Cristo.
Esta área de estudo, defronta-se
sobretudo aquilo que é a questão cristológica de Jesus, ou seja, de que modo
passou a ser entendido e compreendido à luz da fé, o próprio Deus encarnado,
todos os demais títulos: Filho do Homem, Rabi/Mestre, Salvador, Senhor e ainda
reconhece-Lo por diversas fontes, como tal. A Cristologia prende-se, portanto,
pelo estudo da verdadeira identidade de Jesus, como também compreender o seu
papel como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
A Cristologia nasce já no seio
dos apóstolos pelo fascínio e espanto da presença de Jesus, mas é na
ressurreição que tudo parece começar a ganhar alicerces e bases para dar
continuidade do Seu Mandamento: «Ide por todo mundo, pregai o Evangelho a toda
criatura» (Mc 16,15) pois, «Eu estarei convosco até ao fim dos tempos» (Mt
28,20). É aqui que as primeiras comunidades percebem e começam a entender a
pessoa de Jesus Cristo á luz do Antigo Testamento, Aquele que viria para salvar
o seu povo.
A cristologia vai andar em torno
dos acontecimentos, quer da historicidade de Jesus como também o seu kerygma. A
Palavra de Jesus é infindável e está para lá da compreensão humana, é uma
palavra que convoca e nos convida ao seu seguimento e apostolado, à semelhança
da Palavra que se espelha no Antigo Testamento ( que é a mesma por excelência),
ou seja, Deus servindo-se da linguagem humana, cria nos profetas a inspiração
da Sua Palavra e os Chama desde sempre ao Seu amor.
O estudo baseado na Sua
Cristologia, leva-nos ao conhecimento na iluminação que é a fé em Cristo Ressuscitado
toda a base e sustento. Não é possível conceber uma cristologia senão tivermos
como base tudo aquilo que é inerente à pessoa de Jesus. O ponto central que
hoje continua a ser chamativo e a atrair todas as atenções no Cristianismo, é o
evento Pascal, é a Páscoa que torna evidente e crente de quem na verdade se
trata a pessoa de Jesus, Aquele que dá a vida pelos seus e arranca do coração
do homem, tudo aquilo que é extraordinário ao ponto de se entregar livremente
ao amor pelo próximo.
Se a ressurreição é entendida
como o ponto fulcral na história do Cristianismo, não admira que a verdadeira
Páscoa só se entenda numa reflexão cristológica, onde a
continua-descontinuidade ou a descontinua-continuidade de todo o evento de Jesus,
é ainda hoje permanente na vida do crente. Jesus deve ser analisado na
perspetiva pré e pós pascal, isto é, a ressurreição só se compreende tendo como
base todo o evento histórico e teológico da pessoa de Jesus de Nazaré.
As fontes da Cristologia são
altamente verificáveis por exemplo nos Evangelhos Sinóticos, que são aqueles
textos dos apóstolos que apesar de serem semelhantes naquilo que é os
acontecimentos das ações mais marcantes e deslumbrantes de Jesus, e que não
conseguem deixar dúvida da evidência da divindade (ensinamentos, milagres
exorcismos, etc) também têm as suas divergências naquilo que é semântica,
aspetos culturais e também no que toca a Fonte “Q”, a fonte à qual só os
evangelistas tiveram acesso. No entanto, numa análise histórica até aos dias de
hoje, verificamos alguns avanços sobre o estudo e clarividência da pessoa de
Jesus.
Não há muito tempo, coloca-se a First/Old
Quest 1778-1906.
Surge como tentativa de entender
Jesus numa relação histórico-Kerygmática de forma puramente racionalista e
metódica. A figura mais simbólica neste tempo é Reimarus afirmando que a razão
é suficiente para alcançar a fé e o conhecimento da pessoa de Jesus, isto é, o
Jesus da história e o dos Evangelhos não é o mesmo. Apesar de ser um estudo em
que tem várias linhas de investigação, não pressupõe a verdade concentrada na
história porque o mesmo caso não é coincidente nos mesmos evangelhos, caso
contrário o sermão da montanha não estaria totalmente ausente em Marcos, eis
aqui um exemplo de que por não estar um discurso importantíssimo da doutrina de
Jesus em marcos, não significa a real ausência de Cristo.
Contudo privilegia-se a forma
segura de encontrar uma Cristologia baseada na história como infalível, mas o
contraponto é o racionalismo extremista como que só aquilo que é materialmente
palpável é considerado verdade. Não é suficiente. Mais tarde é A.Scheweitzer
que confere esta tese precisamente.
Por conseguinte, surgem novas
tentativas de fundar um conhecimento minucioso sobre a Pessoa de Jesus, entramos
aqui na “NO QUEST” 1921- 1953
Aqui a personagem principal e
aquela à qual contribui fundamentalmente para exegese é Bultmann (1884 – 1976)
afirmando que o importante é o Kerygma, isto é, o que ficou de Jesus para os
homens, o que os homens, na sua livre escolha de adesão ao Cristo, reteram da
sua mensagem. É suficiente para o teólogo não a história completamente fincada
pormenorizadamente em Jesus, mas sim, acolher a intenção e a profundidade como
os autores e testemunhas, nos transmitem o que Jesus diz de Si e nos ensina.
Aqui vemos essencialmente um
descrédito intencional no autor, fazendo com que só era válido aquilo que era
kerigmático e que descredibiliza uma boa parte daquilo que está nos Evangelhos
pois estes são o suporte do próprio Kerygma. A sagrada escritura não deve ser
lida de forma cientifica, até porque não é um livro cientifico, é uma história
de um Povo e que deve ser lido e interpretado com base naquilo que é um
conjunto de parâmetros que fazem parte daquele tempo, por exemplo, é preciso
ter em conta os recursos literários, o estilo de vida, a própria cultura, os
próprios recursos estilísticos, ou seja, não pode ser interpretada “à letra”.
Posteriormente a esta fase, a “NEW
QUEST” em que Kasemann (discípulo
de Bultmann) se demarca um pouco da linha de pensamento do seu mestre. O
teólogo começa por notar que está a criar-se em torno do evento de Jesus
Cristo, uma espécie de mito onde nem sequer é história, e que corre o risco de
ser tomado como um conto de fadas por não ter um fundamento histórico (ou não)
que o sustente. O Jesus histórico é o mesmo Cristo da fé pois os evangelhos não
são palavras soltas e à deriva, elas são conquanto para ser interpretadas à luz
da fé em Cristo que é o mesmo Jesus histórico e revelado pela fé. É aqui que se
tenta diluir o Kerygma com a história, lida e relida desde o Antigo Testamento
até Jesus.
De realçar nesta
fase, que a nova maneira de interpretar, ler e reler tudo aquilo que diz
respeito ao evento de Jesus, a interpretação do seu próprio evento deve ser
feito pelo critério da dupla dissemelhança: aquilo que é original e
incontestável da pessoa de Jesus, a partir daqui, é necessário situa-lo no
contexto da época, Jesus era Judeu, cresceu e viveu como homem que era.
Finalmente, entramos na última
fase, aquela que denominamos por “THIRD QUEST”
Aqui surge um esforço de
interpretar a figura de Jesus não a partir das descontinuidades, mas
interpretar ao seu tempo e sua cultura vivida na época. Não é possível
chegarmos a uma definição concreta sobre a pessoa de Jesus, senão tivermos por
detrás, uma fonte de sustento no ponto de vista histórico que o permita situar
e conhece-lo devidamente no contexto atual, isto é, nos dias de hoje. A posição
teológica, e de certa forma escatológica, é posta em causa devido ao extremismo
que há em sintetizar absolutamente aquilo que pela Sua divindade o homem não
consegue. Em que por um lado, não há fonte segura dos fatos, até porque todo o
mistério de Jesus só é devidamente interpretado depois da sua paixão, morte e
ressurreição, logo supera todas as tentativas concretas de justificar o Jesus
histórico como infalivelmente seguro. O que podemos tomar como Seguro, é a Sua
Palavra que não pode falhar e em todo o caso, mantém o mistério em aberto, não
se fecha, pois, nem isso depende de nós.
KERYGMA – Tratam-se
das interpretações sistemáticas da pessoa e obra de Jesus Cristo no decurso da
inteira história da Igreja.
Cristologia
Implícita – refere-se a afirmações que, no contexto em que se encontram, aludem
de forma codificada ao ser e ao agir de Jesus. É também chamada de Cristologia
indireta, pois contém apenas alusões indiretas, a partir das quais, por meio de
uma série de conclusões se supõe a unicidade de Jesus.
Cristologia
Explícita – refere-se ás afirmações que exprimem a dignidade e divindade de
Jesus e é também chamada cristologia direta, pois afirma de modo direto e por
meio de termos claros a unicidade de Jesus Cristo.
Cristologia
Dogmática – refere-se ás definições da pessoa e atuação de Jesus Cristo propostas
pelo magistério eclesiástico. O seu ponto de partida são os dogmas, isto é, as
formulações vinculantes, propostas pelo magistério geralmente em momentos de
crise como a reação à negação de uma verdade central no campo cristológico.
Cristologia
Especulativa – refere-se a hipóteses teológicas acerca da pessoa e obra de
Jesus Cristo. O objetivo destas teorias consiste em trazer uma nova luz e maior
compreensão à identidade de Jesus Cristo; são certas interpretações e
determinados modelos cristológicos, elaborados e propostos seja por teólogos
individualmente, seja por escolas teológicas no decurso da história
eclesiástica, desde a patrística até ao presente.
Cristologia do Alto e
do Baixo
Existe
uma mútua reciprocidade e inclusão entre o Filho feito Homem e, Jesus e o homem
Jesus exaltado junto de Deus. Importa reencontrar aquela acentuação que o ponto
de partida parece esquecido, isto é, a cristologia do alto parte da perfeita
divindade de Jesus para alcançar a Sua perfeita humanidade, enquanto a cristologia
de baixo parte da perfeita humanidade de Jesus para chegar à Sua perfeita
divindade.
O
Contexto de Jesus Cristo: situação social, político e religioso
A
economia palestinense baseava-se na agricultura e na manufatura. Os principais
produtos eram o grão, azeite, fruta, hortaliças, pesca e gado (ovelhas e
cabras). Sobre as propriedades, casas e terrenos pagava-se ao que hoje chamamos
de IMI, o imposto religioso pagava-se no templo, pois todo o Varão hebreu
adulto tinha que pagar ao templo dois dracmas por ano (o equivalente a dois
dias de trabalho de um agricultor).
Enquanto
sociedade e família, os ricos viviam em cidades helenizadas, sedes do governo e
da administração romana, por contraste aos ricos, os pobres era uma classe
composta por trabalhadores temporários.
Os
fariseus, escrupulosos observantes da Lei (Torah) odiavam e desprezavam as
gentes incultas pois nem eram considerados para eles israelitas e incapazes de
cumprir a Lei. A mulher não gozava de relevância social nem lhe era ensinada a
Lei; uma mulher casada que tivesse relações intimas com homem solteiro era
considerada adultera e morta à pedrada, enquanto o contrario não se verificava,
o testemunho de uma mulher não era tido em conta; o chefe da família era o
homem a quem competia a educação dos filhos;
O
divórcio havia sido permitido por Moisés e tolerado na forma de repúdio da
mulher por parte do Homem em razão de motivos sérios.
A vida
Religiosa fazia-se me torno da Sinagoga do lugar e do templo de Jerusalém.
Todos os sábados tinha lugar o rito sinagogal, que era uma espécie de liturgia
da palavra. Todos tomavam parte, mas apenas os homens adultos podiam ser
convidados a ler textos da Lei e os profetas e, conforme os casos, a fazer um
comentário ou homilia (MIDRASH).
O
Sábado era o centro de vida religiosa judia. O Shabbat (que vem de repousar)
exigia a escrupulosa observância do repouso que permitia a participação na
liturgia sinagogal e a leitura da Torah.
Falemos
finalmente, do Sinédrio como o órgão jurídico-religioso mais importante na vida
de Israel. Tinha competências em todas as questões de direito religioso e
direito civil e nele estavam representadas todas as classes dominantes: 70
membros no total, sob a presidência do sumo-sacerdote. Este, ainda que
investido no cargo pelos romanos, continuava a ser o representante máximo do
povo Judeu. O Sinédrio era formado pelos sacerdotes superiores (o
sumo-sacerdote, os seus predecessores e alguns outros titulares de altos cargos
sacerdotais), pelos anciãos e pelos escribas.
A
Situação Sociopolítica.
O
estudo de uma situação sociopolítica do tempo de Jesus é um fator, entre os
quais, determinantes naquilo que é, a busca sobre uma identidade que contribui
na reflexão acerca de pessoa de Jesus. A cultura, a história do Seu povo, a
geografia da Sua Vida, a Sua língua, o ambiente social do seu tempo, as tensões
que existem a nível político são aqueles fatores que podem contribuir
fundamentalmente para um estudo histórico que permita a viabilização de uma
identidade concreta sobre Jesus. É importante também, interpretar aqui a forma
como Jesus se entende a si próprio e ao sentido do seu dever não é alheio ao
contexto do Seu tempo, ao contexto do Seu povo. Jesus vive sob os costumes da
tradição judaica e Israelita e por isso, podemos admitir que a mensagem de
Jesus, os gestos de Jesus, as opções que foi assumindo tomaram uma determinada
configuração também sob o influxo dessa envolvente.
A
situação religiosa, é talvez o fator que mais determina a possibilidade de ler
e reler a pessoa de Jesus à luz do Antigo Testamento como Aquele que é o
enviado do Pai. É sabido que Jesus cresce sob os costumes da tradição judaica,
é circuncidado, participa na Sinagoga e inclusive ele é o próprio Halaka e
Haggadah da Lei. O próprio Jesus parece estar sempre na evidência da sua
divindade e na reticência da sua humanidade, ou seja, Jesus é a Palavra e não
há ninguém que a interprete tal como Ele e isso faz com que ele se faça a
própria Torah, a própria Lei, a convicção que para Jesus, a Lei se concretize
n´Ele e para que se cumpra toda escritura na integra. Jesus parece evidenciar
sempre a clareza da Escritura n´Ele mesmo.
«Cumpriu-se
hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc4,21)
Neste
sentido, o contexto religioso é o que mais diz da sua pessoa e consequentemente
é o que mais contribui para um estudo centrado na sua própria cristologia, isto
é, Jesus faz-se entender por Si mesmo e nos mostra a sua própria Teologia.
Os mistérios da Vida
de Jesus Cristo
A
mensagem de Jesus
Todos
os ensinamentos da vida de Jesus, servem todos eles como encíclicas, isto é, é para
circular sobre as comunidades primitivas e até aos dias de hoje. Todo o
discurso de Jesus está voltado para o reino dos céus ou até mesmo para o reino
de Deus. Aqui trata-se de uma análise pessoal e é inegável que possamos de
falar de Sua pessoa enquanto humano, ou seja, Jesus vai adequar o seu discurso
consoante os auditórios que tem e tenta balancear a sua divindade com a sua natureza
humana. Todo o mistério de Jesus Cristo, é preciso ter em conta a sua vida e
sua morte e, nesta medida, o mistério da sua mensagem até à ressurreição desdobra-se
na história da sua vida terrena. É extremamente importante salientar a relação
filial com Deus, mais tarde denominado com ABBA (Paizinho) e neste sentido, a
mensagem primordial de Jesus destaca-se com o anúncio de um Deus paterno e
misericordioso.
Jesus
adequa o seu discurso usando como um meio as Parábolas – grandes ensinamentos
morais em poucas palavras e que coloca a pessoa, numa relação ao Reino de Deus,
num plano a perdição e a salvação, ou seja, entre o pecado e a vida. Todo o
discurso de Jesus é escatológico, que coloca a vida e a morte como escolha
livre de cada um.
Podemos
constatar que por um lado, Jesus Sapiencial – sábio e profeta, isto é, alguém
conhecedor não apenas dos ritmos de vida, mas também sobretudo em todo discurso
seguro sobre as verdades do reino de Deus.
A mensagem de Jesus também se prende a
diálogos ou discussões e é ele que escolhe os seus seguidores ao contrário dos
outros ditos mestres que permitiam que fossem escolhidos para ensinar. Jesus
age de modo autêntico tanto no seu discurso, como modo de vida a seguir que
implica o desprendimento de tudo. Vemos a parábola do Jovem rico que para ter a
vida eterna teria que doar todos os seus bens e segui-lo sem mais, um
desprendimento total.
A
criação de discipulado no crente torna evidente que o anseio mais profundo de
Jesus era a comunhão, era o convívio, dito de outra maneira, era o desejo mais
profundo de celebrar a páscoa com os seus e é aqui o foco de toda a dinâmica do
anúncio do Reino. É assim que Jesus ama, entregando-Se incondicionalmente ao
próximo pois “Se Ele não tivesse amado, não teria morrido” (Santo Afonso de
Ligório). Jesus é consubstancialmente o Pai.
Jesus
dirige o Seu discurso a quem a Sua presença se tornara um incómodo, Jesus
procura o diálogo que por muitas vezes termina em polémica como por exemplo o
Sábado, em que os Fariseus afirmavam como prioridade sobre todas as coisas e
Jesus vem dizer que é o Sábado para a pessoa e não a pessoa para o Sábado. Ou seja,
Jesus para além de autoridade, trazia consigo o verdadeiro sentido da Lei,
porque a Lei liberta, não oprime, pelo contrário, auxilia a amar melhor. Jesus
mostra uma enorme liberdade relativamente ao Status Quo do seu tempo, Livre até
para radicalizar certos aspetos da Lei de Moisés. Um outro assunto polémico era
a posição da mulher quase vista como sem valor e Jesus remete-nos para o
Génesis, a criação do homem e mulher são iguais no valor para Deus. Por esta
razão o Jesus dos diálogos parece revestido de emitir uma palavra que tem força
original, isto é, evidencia o seu conhecimento profundo sobre a Lei e nesta medida,
não há palavra que passe indiferente na vida de cada um que o confronta.
Jesus nos seus ditos e ensinamentos, começamos
por constatar em Mc que o tempo se cumprira, que está próximo o Reiono dos Céus
(Mc1,15), o Reino é Jesus – carácter teológico, não é propriamente um reino utópico,
isto é, sem pés e cabeça. O Reino dos céus ou de Deus é real, pode ser vivido aqui
e agora. Jesus é o interprete da Lei qualificado, o qual só Ele sabe entender
como ninguém, de outra maneira Ele não seria o Verbo encarnado, o Messias que
havia de vir.
Jesus,
embora conhecendo a Lei, propõe algo diferente, que amemos até os nossos
inimigos (Cf. 5,44), esta autoridade e novidade de “mandamento novo” é
absolutamente original e encarado por muitos como o «Novo Moisés», tal como no
Sinai, Deus revela a Torah, Jesus agora revela o Evangelho, passamos num discurso
de 3ª pessoa para o discurso em 1ª pessoa por excelência que é Jesus, a
personificação da Lei pois a forma como Jesus fala em nome de Deus aproxima-o
do perfil de profeta e o profeta é aquele cujo a Palavra de Deus vive em
comunhão com Ele – caracter teleológico.
Os
milagres são certamente um tema que chama deveras atenção, e que recai a pique
sobre a verdadeira personalidade e identidade de Jesus. Não faz sentido um
discurso sobre o Reino de Deus se isso não trouxer consigo uma clarividência para
os seus contemporâneos, isto é, o que Jesus anuncia em palavras, comprova-o com
gestos e fá-lo não de modo isolado, mas em público. Os milagres são ações extraordinárias
e taumatúrgicas que maravilham os demais do Seu tempo. Existem ao longo dos
Evangelhos alguns desses sinais que pressupõem o Reino de Deus junto do Seu
povo. Para Marcos os milagres tendem a ilustrar o combate e a vitória de Jesus
sobre o poder de Satanás; em Mateus os milagres ordenam-se e subordi a-se à palavra
de Jesus; em Lucas, os milagres mostram Jesus como o grande benfeitor e como
profeta do final dos tempos; em João, os milagres são sinais que, compreendidos
na fé, apresentam Jesus como revelação evidente de Deus.
A abordagem
deste tema não pode ser feita de modo científico, mas ser lido e relido à
mentalidade da época em que era entendido como intervenção de Deus pois está
intimamente ligado à Sagrada Escritura sob o ponto de vista escatológico, como
que sinais ou realidades do Reino.
Os
milagres, sob a identidade de Jesus, surgem por um lado como prova de que havia
se realizado em Jesus a ação salvífica de Deus, e por outro, a confirmação da
sua pregação em detrimento das expetativas do Messias no Antigo Testamento,
isto é, que Deus viria para salvar o Seu povo. Numa certa linha de continuidade
sob os milagres, é importante falarmos do perdão e se Jesus perdoa, confere
autoridade para tal, o que pressupõe Deus misericordioso, o mesmo que se revela
no Jesus da compaixão.
As
refeições assumem aqui também, um lugar ou local central no anúncio da sua
mensagem. Em primeiro lugar, as refeições ganham outra dimensão precisamente
pelo banquete definitivo profetizado no Antigo Testamento. Sabendo que era
altamente inviolável a “mistura” dos ditos santos defensores da Lei com os
pecadores e publicanos, é precisamente esses que Jesus se encontra à mesa. É aqui,
aquela que eu identifico como mais bela reconquista de Deus sobre o Homem porque
se Deus chama, assim Jesus os resgata e evidencia a Eucaristia – reconciliação
da comunhão do homem em Deus. Esta é a Paixão do Senhor.